Eu me chamo Antonio

quinta-feira, 30 de abril de 2020

A Sabedoria Oculta da Cabala

A Cabala denominada “A Sabedoria Oculta” é um método antigo dado pelo Criador e pelo qual o ser humano pode receber uma consciência superior para alcançar o mundo espiritual, atingindo a espiritualidade. A Cabala é um estudo prático e preciso que, se ocupa com os mundos superiores, com as raízes dos nossos sentimentos e pensamentos, para os quais não conseguimos construir instrumentos científicos para examinar.

A palavra "Cabala" vem da palavra hebraica lekabbel, que significa “receber”. A palavra "Cabala" descreve a meta do cabalista: atingir tudo aquilo que o ser humano é capaz como ser pensante e a mais elevada de todas as criaturas. Este desejo de receber se desenvolve numa ordem determinada: primeiro deseja-se o prazer dos sentidos. Em seguida se busca o dinheiro e a honra. Depois a pessoa se torna sedenta de poder. Por fim, pode surgir um desejo especial: a espiritualidade. A Cabala é um sistema para avaliar nossos desejos.

Estuda-se a Cabala para aprender coisas que lhe estão ocultas. Somente quando se adquire o sexto sentido, pelo estudo da Cabala se pode ver e sentir o que previamente não estava revelado. Todos possuímos este sexto sentido conhecido como "o ponto do coração“. O sexto sentido é também chamado de "vaso espiritual" (kli), e existe mesmo sem realidade material. O vaso espiritual de uma pessoa que nunca estudou a Cabala não está suficientemente desenvolvido para perceber o mundo espiritual.

Se alguém entende corretamente a Cabala, invoca a chamada "Luz circundante", a “Luz que corrige”, que lhe mostrará nossa realidade espiritual. Nada é possível sem a ajuda da Luz circundante que nos ilumina o caminho. A entrada da luz no ponto do coração - a alma da pessoa -  provoca nessa a percepção espiritual. A Cabala é o único meio para abrir o vaso espiritual e receber a luz do Criador. A luz recebida quando alguém se dedica à sabedoria lhe confere santidade e pureza aproximando-a da realização.

Os termos "corrigir" e "correção" são utilizados na Cabala para descrever uma mudança no desejo de receber, isto é, de receber as qualidades do mundo espiritual e do Criador. Esse processo é chamado segula, do hebraico que significa “remédio”.

O cabalista é uma pessoa comum como outra qualquer. É um pesquisador que estuda sua própria natureza, a essência de sua existência utilizando os sentimentos, intelecto e o coração. O cabalista recebe conhecimento a respeito das esferas espirituais, dos mundos superiores e da manifestação das forças superiores e está ao mesmo tempo em nosso mundo e nos mundos superiores. Nos livros, os cabalistas transmitem técnicas baseadas em experiências pessoais, ajudam os próximos a trilharem o mesmo caminho, esse método denomina-se “A Sabedoria da Cabala".

O primeiro cabalista foi o patriarca Abraham. A Cabala foi transmitida oralmente durante muitos séculos e, continuou a desenvolver-se depois que a Torá foi escrita. No período compreendido entre o Primeiro Templo e o Segundo - 586 a. C. 515 a.C., já se estudava Cabala em grupos. Depois da destruição do Segundo Templo - 70 d. C. - até agora, houve três períodos importantes nos quais apareceram os mais importantes escritos no desenvolvimento da Cabala e de seus métodos de estudo.

Primeiro período - Século III:

Rav Akiva viveu entre 40 – 160 d. C..  Rabí Akiva e 24.000 de seus alunos foram torturados e assassinados pelos romanos, os quais sentiam-se ameaçados pelos ensinamentos da Cabala. Somente o Rav Shimon Bar Yochai (150 – 230 d. C.) o “Rabshi” e outros quatro alunos de Rabí Akiva sobreviveram à matança. Depois disso, Rav Akiva e Rav Yehuda Ben Baba autorizaram o "Rashbi” a transmitir a Cabala que lhe havia sido ensinada.

O “Rabshi” escapou com seu filho Eliezer e viveram numa gruta durante treze anos. Eles saíram da gruta com o livro do Zohar e com um método completo para o estudo da Cabala, tendo atingido a espiritualidade. Rashbi alcançou os 125 níveis que um humano pode conseguir durante sua vida. O Zohar relata que Rabshi e seu filho atingiram o nível denominado "Eliahu o Profeta", o que significa que o próprio profeta vinha ensinar-lhes. O Rabshi não escreveu o Zohar por ele mesmo, mas transmitiu a sabedoria e a forma de atingi-la ditando seu conteúdo a Rav Aba.

Rabí Aba redigiu o Zohar de maneira que só pudessem entendê-lo aqueles que fossem dignos disso. Foi escrito em forma de parábolas em aramaico e diz que o aramaico é o lado oculto do hebraico e explica que o desenvolvimento humano se divide em 6.000 anos. Nesse período as almas passam por um desenvolvimento contínuo. Por fim, todas as almas atingem o "fim da correção", isto é, o nível mais elevado de espiritualidade e perfeição.

O livro do Zohar desapareceu depois de ser escrito. Conta a lenda que os escritos do Zohar permaneceram ocultos numa gruta em Israel, sendo encontrados vários séculos depois por residentes árabes da região. Um dia, um cabalista comprou pescados no mercado embrulhado em páginas do Zohar. Voltou e comprou dos árabes o resto das peças, reunindo-as num livro e desse modo o Zohar foi revelado ao longo do tempo quando pequenos grupos de cabalistas estudaram estes escritos em segredo. No século XIII, na Espanha, Rav Moshé de León publicou o Zohar pela primeira vez.

O segundo período – século XVI:

É o período do Ari, Rav Isaac Luria, autor da transição entre os dois métodos de estudo da Cabala. Ari nasceu em Jerusalém em 1534. Proclamou o começo de um período de estudo aberto e em massa da Cabala e nos seus escritos, aparece pela primeira vez a linguagem pura da Cabala. Em 1570, Ari chegou a Israel aonde começou a ensinar a Cabala e se tornou famoso, deixando textos com um sistema básico para estudar a Cabala, que continua vigente: "Etz Hachayim" (A Árvore da Vida), "Sha'ar Hakavanot" (O Portal das Intenções), "Sha'ar Hagilgulim" (O Portal da Reencarnação) e outros.

Ari faleceu em 1572. Seus escritos foram enterrados com ele, para que a sabedoria não fosse revelada antes do tempo certo, mas outra parte foi legada a seu filho, que as organizou como “As Oito Portas”. Muito depois, um grupo de estudiosos resgataram da tumba do Ari a outra parte dos escritos. Somente nos tempos do Ari se começou a estudar o Zohar em grupos abertamente, por isso, o estudo do Zohar prosperou durante duzentos anos. Entre 1750 e o fim do século XIX, praticamente todo grande rabino era um cabalista. Apareceram cabalistas na Polônia, Rússia, Marrocos, Iraque, Iêmen e outros países. Contudo, no início do século XX, o interesse pela Cabala decaiu até quase desaparecer por completo.

O terceiro período – século XIX:

Trouxe um método adicional às doutrinas do Ari, a versão Sulam (escada) do Zohar, escrita pelo Rabí Yehuda Ashlag, conhecido como "Baal HaSulam“. O Baal HaSulam nasceu em 1885 na Polônia e, em 1921 emigrou para Israel. Escreveu sua interpretação do Zohar entre 1943 e 1953, morrendo em 1954 sendo então, sepultado em Jerusalém. Sucedeu ao Baal HaSulam seu primogênito, Rav Baruch Shalom Ashlag, o "Rabash" e seus livros estruturam com elegância os escritos paternos. O Rabash faleceu em 1991. O Baal HaSulam, escreveu um comentário completo do Zohar e dos escritos do Ari. Estes livros e os ensaios de seu filho, o “Rabash” são a única fonte de que dispomos para ajudar em nosso progresso espiritual.

O método do Baal HaSulam serve para todos, havendo apenas um requisito: o estudo correto, pois aqueles que estudam a Cabala não podem errar em seu entendimento. Assim, estudando segundo os livros do Baal HaSulam atinge-se a autêntica correção. A Sulam assegura que ninguém deve temer o estudo da Cabala e que, todo aquele que estudar Cabala durante três a cinco anos subirá às esferas espirituais ao "entendimento divino”.

Os três grandes cabalistas são uma mesma alma, que apareceu: a primeira vez como o Rabshi, a segunda vez como o Ari e, a terceira vez como o Rabash.

O único critério para determinar se alguém está pronto para estudar a Cabala é o seu desejo de correção. As pessoas procuram curas rápidas, querem saber de magia, de meditação e de curas cabalísticas e, não lhes interessa realmente a revelação dos mundos superiores ou aprender os métodos para atingir os domínios espirituais. Isto não constitui um desejo genuíno de estudar Cabala. Um desejo autêntico de descobrir e perceber em si os mundos superiores conduzirá a pessoa ao caminho da Cabala.

Durante séculos a Cabala era ensinada apenas de um cabalista para o outro. Atualmente existe o desejo de disseminar a sabedoria da Cabala e de convidar a todos para seu estudo. Para estudar adequadamente a Cabala é recomendável aos estudantes concentrarem-se unicamente nos escritos do Ari, Baal Hasulam e Rabash em suas versões originais. O objetivo básico da Cabala é alcançar a espiritualidade. Se alguém estuda os textos para obter espiritualidade, estes serão uma fonte de luz e correção. Caso os estude para obter sabedoria, serão para esse apenas sabedoria. Os textos da Bíblia são textos de Cabala e, entre a Bíblia e a Cabala, a última é a mais útil e direta. Todos os cabalistas estudaram em grupo, então, um grupo é essencial para que haja progresso. Não se deve estudar a Cabala sozinho.

A Cabala ensina ao homem como receber. Tudo foi criado por um motivo e não é necessário que o cabalista retire-se da vida, torne-se um monge ou asceta. É o coração que deve se abrir com a ajuda do nosso intelecto. Um coração desenvolvido separa o correto do incorreto e nos conduz naturalmente às ações e decisões corretas.

Tudo o que sabemos sobre o mundo é baseado em estudos humanos. Em cada era, a humanidade usa o mundo ao seu redor. Cada geração estuda o mundo e transmite seu conhecimento à geração seguinte. O mesmo ocorre no plano espiritual, cada geração de cabalistas estuda e descobre os mundos espirituais e transmite o conhecimento às gerações seguintes. Ao estudar a realidade o que está além dela permanece desconhecido e não revelado. Apenas os cabalistas, que alcançam a luz podem compreender verdadeiramente a realidade, pois além dos cinco sentidos só existe a luz abstrata superior, sem forma, chamada o Criador.

O que chamamos "escutar" é na realidade a resposta de nossos tímpanos aos estímulos externos. O mesmo acontece com os demais sentidos: visão, paladar, tato e olfato. A realidade é a imagem que pintamos em nosso interior. A realidade tal como a conhecemos é distorcida.  Não a vemos em sua verdadeira forma. A lógica diz que a realidade deve ser uniforme para todos, no entanto, um escuta uma coisa, outro outra; um vê uma coisa, outro vê outra. Baal HaSulam ilustra isto com a eletricidade. A energia esfria ou esquenta, segundo a especificação do aparelho que se conecta nela, mas a energia não tem forma própria: é abstrata, assim o aparelho revela o potencial da eletricidade. O mesmo se dá com a luz superior, o Criador não tem forma e, cada um percebe o Criador segundo seu nível de correção. Quando alguém avança nos estudos da Cabala, se corrigir todos os seus sentidos segundo a luz circundante, não haverá nenhuma separação entre esse e a luz, entre o homem e o Criador. Consegue-se então a santidade, o nível mais elevado de espiritualidade.

Ninguém é uma alma nova e todos nós acumulamos experiências de vidas prévias em outras encarnações. Em cada geração, ao longo dos últimos seis mil anos, desceram almas que já tinham estado aqui em ocasiões anteriores, com alguma forma diferente de desenvolvimento espiritual. As almas descem à terra segundo uma ordem determinada e seu número não é infinito: voltam uma e outra vez, progredindo em direção à sua correção. Os novos corpos físicos que ocupam são parecidos, mas os tipos de almas que descem são diferentes, isso se chama popularmente de reencarnação, mas os cabalistas usam a expressão "desenvolvimento das gerações".

Esta conexão entre a alma e o corpo colabora para a correção da alma, pois o corpo em si pode ser substituído, sendo útil apenas como recipiente a partir do qual a alma pode atuar. Cada geração se parece fisicamente com a anterior, mas diferem entre si porque em cada ocasião as almas baixam com a experiência acumulada de suas vidas prévias. Os objetivos e desejos de cada geração diferem da geração anterior e, isso determina o desenvolvimento específico de cada uma delas. A geração que não alcançar o desejo de conhecer a verdadeira realidade, cumprirá sua tarefa através do sofrimento. Essa será sua forma de progredir para a autêntica realidade e, a realidade está desenhada para que as almas desçam e se autocorrijam.

Todas as almas originam-se de uma chamada "a alma do primeiro “homem“ que não se refere ao Adão, mas a uma realidade espiritual interna. Partes da alma do primeiro homem descem ao mundo para encarnar, tomando forma de corpos e provocando a conexão entre o corpo e a alma. A alma do primeiro homem possui muitas partes e muitos desejos, alguns leves, outros pesados, segundo a sua quantidade de egoísmo e crueldade. Das leves às pesadas é a ordem em que as almas descem para encarnar nesta realidade. Chegam a nosso mundo primeiro as almas leves e depois as pesadas, com diferentes requisitos para alcançar as suas correções. Em sua vinda ao mundo, as almas adquirem experiência através de sofrimento e isso se conhece como "o caminho do sofrimento”.

Cada vez que reencarna, aumenta na alma o seu impulso inconsciente de procurar respostas às perguntas a respeito de sua existência, de suas raízes e da importância da vida humana. Existem almas mais e menos desenvolvidas. A Cabala distingue entre as almas que descem como puras e almas menos refinadas. As que requerem uma correção maior são chamadas de "menos refinadas". Antes do Ari as almas progrediam para a correção pela sua mera existência. O desejo de superar o sofrimento, foi a força motivadora do desenvolvimento das gerações. Essa situação durou até o século XVI, quando Ari declarou que, os homens, as mulheres e, as crianças de todas as nações deveriam estudar a Cabala. 


Música dos mundos superiores, Baal HaSsulam - Música de Cabalá Bnei Baruch




terça-feira, 21 de abril de 2020

O mundo passou quando o ano acabou.

Desde tempos imemoriais na antiguidade, o Ano Novo foi uma celebração da cosmogonia. Na festa, a humanidade comemorava a maior obra do divino, a criação do mundo, o início dos tempos. Significava a oportunidade que toda a humanidade possuía de entrar num tempo sagrado, conectando-se em harmonia com o divino, para naqueles momentos de festejos, introspecção, reflexão, esperança e renovação, ser conduzida numa viagem utópica feita pela imaginação humana, ao momento da criação. Durante o Ano Novo, a humanidade festejava a possibilidade da recriação e da renovação do mundo, embora essa recriação e renovação, dependesse somente dela mesma. Por isso, ainda se diz: o mundo passou, quando o ano acabou.

O mundo passou quando 2019 acabou.


Nesse mundo novo, a humanidade se convence com toda sua força e certeza, daquilo que afirmou o médico cristão chinês Li Wenliang, pouco antes de morrer: "Numa sociedade saudável, não deve haver uma só voz". Um parasito esquálido, invisível e coroado, ensina a humanidade que, só os sectários temem a liberdade de expressão, negando que deve ser para todos e que, enquanto houver um homem, haverá esperança de liberdade para todos.

Liberdade para toda a humanidade.

Liberdade para o povo chinês.
Liberdade para o Tibete.
Liberdade para Hong kong.
Liberdade para Taiwan.

Nesse Ano Novo - 2020 -, a humanidade tem a oportunidade de conscientizar-se da sua fugaz existência, da sua insignificante pequenez, da sua pífia finitude e da necessidade que sentimos um do outro, de vivermos juntos, unidos, da falta que faz um toque, um abraço, um aperto de mão, um beijo.

Li Wenliang +06/02/2020

A bandeira do Tibete é considerada como um símbolo de um Tibete livre.




terça-feira, 9 de julho de 2019

História da Índia


Dirigido por Jeremy Jeffs, o documentário “A História da Índia” começa lembrando a independência do país do domínio inglês em 1947 e ressaltando a sua importância como protagonista de uma cultura que remonta a dez mil anos.  No mais antigo mito indiano, o homem surgiu de um ovo dourado posto pelo rei dos deuses na espuma do oceano cósmico. Embrenhando-se nas florestas indianas, o apresentador, Michael Wood, encontra um clã brâmane aonde sacerdotes entoam antigos mantras. Sons milenares repassados através da tradição oral desde antes de existir a linguagem e, usados nos preparativos para as cerimônias ao Deus do Fogo. Não apenas os sons e rituais antigos persistem na Índia, também os primeiros genes da humanidade foram preservados através de casamentos consangüíneos entre primos de primeiro grau, a linguagem e as religiões vieram depois. Contudo, na Índia também se conserva a mais antiga religião da humanidade, o culto a Deusa Mãe. Em 1921, na planície do rio Indo, Paquistão, arqueólogos acharam vestígios de uma civilização pré-histórica que antecedeceu a civilização grega, a cidade de Harappa fundada em 3.500 a. C. No ano seguinte, os arqueólogos encontraram mais ao sul, Mohenjo-Daro, uma metrópole da Idade do Bronze e capital de um império que se estendia do Himalaia ao mar da Arábia.  Depois de séculos, essas cidades entraram em colapso, provavelmente por causa da queda brusca na força das monções e a mudança no curso do rio Indo. Por volta de 1.500 a. C. surgiu à literatura, com os textos sagrados mais antigos do mundo, os Veda e, da linguagem indiana, o sânscrito.  Os versos dos hinos do  Rig Veda contam uma história em que, os chefes daquelas tribos primitivas falavam o sânscrito e  se auto denominavam Árias, termo que significa “os civilizados”. O sânscrito compartilha com o latim e o grego da mesma origem e parece ter-se originado fora da Índia. Naquela época chegavam à Índia os Árias com novos deuses e uma nova língua fixando-se no vale do rio Indo no norte da Índia. O Rig Veda fala sobre uma bebida usada nos ritos sagrados dos Árias, o soma. O soma ainda é usado com fins medicinais na Ásia central. A bebida desperta os sentidos e era usada pelos poetas que compuseram o Rig Veda, no entanto, a planta da qual se faz o soma não cresce na Índia e atualmente não é mais usado na religião Hindu, portanto a bebida veio de fora da Índia. Em torno do ano 1.000 a. C., os Árias ocuparam o norte da Índia e travaram batalhas homéricas pela supremacia contadas em uma narrativa mítica chamada de “Mahabharata”, o poema mais longo do mundo e para os indianos, a mais importante história já contada.   O “Mahabharata” é um épico apocalíptico que conta a história de disputas entre clãs e remonta a chegada dos Árias à Índia.  
            Para a tradição indiana, a meta da humanidade é viver na virtude, o “dharma”, ter sucesso e riqueza, o “artha”, encontrar o prazer, ”o Kama” e, atingir a iluminação, o “moksha”. A sociedade indiana segue uma ordem fundamentada no sistema de castas que, divide as pessoas determinando suas ocupações e seu lugar na sociedade. Os párias ou intocáveis são a casta mais baixa na sociedade e exercem o dever de cremar os mortos. Esse sistema de poder foi questionado pelos antigos pensadores das civilizações antigas desde o século V a. C., mas o mais influente desses pensadores foi“Sidharta”, o Buda. Buda foi um príncipe que abandonando a sua família e a riqueza, peregrinou pelo mundo durante seis anos em busca da verdade até chegar a “Bodhgaya”. Ao chegar a “Bodhgaya” era apenas mais um andarilho esfarrapado que vivia como os homens santos da Índia, num estado de privação imensurável. Um dia, sentou-se debaixo de uma figueira para meditar em busca da iluminação. Pela manhã, o Buda concluiu que a natureza da condição humana era o sofrimento causado pela cobiça, o apego e o desejo humano. Libertando-se desses desejos o homem se tornaria livre. As ideias do Buda são resumidas no respeito a todos os seres vivos, a compaixão, a verdade e a não violência. Até ali, o Buda continuava sozinho então, saiu de “Bodhgaya” e foi para “Sarnath”. Em “Sarnath” encontrou cinco conhecidos dos seus tempos de peregrinação, os quais se tornaram seus primeiros discípulos e para quem transmitiu seus ensinamentos pela primeira vez, proferindo o seu primeiro sermão. Pelos quarenta e cinco anos seguintes, o Buda viajou a pé, mendigando e fazendo pregações pelos reinos da planície do rio Ganges. O Buda foi um contestador de governos em prol da justiça social, o primeiro rebelde indiano. Ele foi à cidade de “Rajgir” a convite do rei. Nessa época, o Buda já possuía mais mil discípulos. Já idoso, com cerca de oitenta anos, o Buda fez a sua última jornada cruzando a planície rumo ao Himalaia, de volta às terras aonde nasceu, aonde morreria. Ali se quedou enfermo. Há muitos mitos sobre os últimos instantes \da vida do Buda, mas em todos esses suas últimas palavras foram: “Tudo nesse mundo é passageiro, sigam a luta incansavelmente”. Os ideais do Buda foram cultuados apenas na planície do rio Ganges ao longo de dois séculos, mas a guerra mudaria essa trajetória. Na ocasião da morte do Buda, o império Persa invade a Grécia. No século seguinte, em 331 a. C., os gregos rumaram para o Oriente em busca de vingança e o império persa é invadido pelo jovem general Alexandre, o grande, subjugando o monarca persa Dario. Imperialista, Alexandre conduz o seu exército através das planícies da Índia. Foi o primeiro encontro entre a Índia e o Ocidente. Durante a invasão grega, um jovem rei indiano chamado “Chandragupta Maurya, na capital do seu império, a atual “Patna”, renunciou ao trono em busca da salvação, a “moksha”. Esse primeiro grande rei da Índia passou fome até a morte numa caverna em busca do conhecimento e da libertação. Vinte anos após a sua morte, seu neto “Asoka” o cruel, tomaria suas ideias e, juntando-as com a ética jainista e budista, as transforma não apenas na essência da moral individual, mas em política. Ele cria a legislação de bem estar social, os ensinamentos de tolerância religiosa e, os preceitos ecológicos para a preservação das espécies animais e vegetais. Essa política abandona a seara da religião e da magia para ser ditada pela razão e pela moralidade.  

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Oração Penitencial

Hoje à tarde, saí despretensiosamente em busca de algo de pouca relevância para ser comentando aqui, até porque, mais importante de fato nessa investida foi outra coisa que, não estava planejada e que, a vida e o destino colocaram a minha vista. 

Sentado a sombra de um muro, sobre uma jardineira de cimento e quase espremido entre os carros de um estacionamento na calçada de um banco na praia de Tambaú, com a cabeça abaixada, apoiada em seus braços magros, os quais por sua vez, se apoiavam sobre os seus joelhos igualmente franzinos, guardando cautelosamente no colo uma bacia com alfenins caseiros, estava um garoto. Parecia triste, talvez estivesse dormindo, quem sabe estava exausto, cansado de tanto caminhar pelas ruas, em busca de alguém que comprasse sua humilde mercadoria, para conseguir algum dinheiro que levasse para casa e pudesse ajudar no sustento da família. 

Parei alguns passos adiante, tocado por aquela visão. Imediatamente, pensei em registrar a cena, fotografando aquele garoto. Enquanto preparava a câmera do celular para retornar alguns passos e fazer a foto, percebi que um homem, o qual me pareceu ser turista e que, também passava pela calçada com sua família, sensibilizou-se e tocou o ombro do menino. Perguntou-lhe algo, não ouvi o quê e não sei o que obteve como resposta. Vi quando pegou uma cédula de dinheiro, não posso assegurar quanto com toda certeza mas, acredito eram 10 reais e, entregou ao garoto, retirando-se tranquilamente dali. 

Um turbilhão de pensamentos invadiu a minha mente. Como poderia eu ser tão desumano e mesquinho. Não tive a hombridade daquela iniciativa e ao invés disso, na minha veia poética e levado pela futilidade da vida moderna, pensei antes de qualquer coisa, em registrar a cena, para postar em alguma rede social, sem me preocupar ao menos, em remediar ainda que por pouco tempo, a tristeza daquela frágil criatura. 

Nesses dias de final de mês, até tinha uma nota de dinheiro igual aquela que o gentil senhor deixou para o garoto, mas confesso, certamente aquele dinheiro me faria falta. Até pensei em me aproximar daquelas pessoas e parabenizar aquele senhor por sua nobre atitude. Desisti disso, considerando que o aparente anonimato de seu gesto, tornava ainda mais digna a sua atitude. Saí dali com olhos marejados, refletindo sobre a minha insensibilidade e mesquinhez. Mas, ao mesmo tempo, procurando o meu perdão ou melhor me livrar da culpa, nos meus próprios devaneios. Pensei nos seis milhões de reais de restos de campanha, usados pelo ex-governador do estado do Rio de Janeiro para comprar jóias para sua esposa. Pensei ainda no milhão de dólares usados para comprar roupas de grife pela esposa do ex-presidente da câmara de deputados Eduardo Cunha. 


Assim, confesso a Deus, todo poderoso e a vós, que pequei muitas vezes, por pensamentos e palavras, atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa. 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Odeio rodeios

Odeio rodeios! Realmente, não curto arrodeios. Recentemente, uma grande polêmica foi gerada pela decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que, por seis votos contra cinco, julgou procedente a Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI), contra a Lei Nº 15.299/2013, a qual regulamentava a vaquejada como prática desportiva e cultural no Estado do Ceará. O ministro Marcos Aurélio, relator do processo, considerou o esporte cruel e, causa de tortura, sofrimento e maus tratos aos animais. Seguiram esse mesmo raciocínio posicionando-se contra a vaquejada, os ministros Luis Roberto Barroso, Rosa Weber, Celso de Mello, Ricardo Lewandowski e a presidente da corte, ministra Carmen Lúcia. Os ministros Edson Fachin, Gilmar Mendes, Teori Savascky, Luis Fux e Dias Toffoli se contrapuseram, divergindo do relator do processo e, votaram a favor da regulamentação da prática desportiva.

Para efeito da Lei, considera-se vaquejada, todo evento de natureza competitiva, no qual, uma dupla de vaqueiros a cavalo persegue animal bovino, objetivando dominá-lo. Os competidores são julgados na competição pela destreza e perícia em dominar o animal. A competição deve ser realizada em espaço que, proporcione segurança, proteção, saúde e integridade física aos vaqueiros, aos animais e ao público em geral. Na vaquejada profissional é obrigatória a presença de profissionais da saúde animal durante as provas e, o vaqueiro flagrado ferindo ou maltratando de forma desnecessária e intencional algum animal, deve ser desclassificado e excluído da competição. Além disso, o transporte, trato e manejo dos animais, devem ser realizados de forma adequada que, assegurem o bem estar e a saúde dos animais.

De uns tempos para cá, os organizadores do esporte têm demonstrado a preocupação em desenvolver artefatos que protejam a cauda do boi, como também em melhorar e aumentar a altura da faixa de areia, destinada a queda do boi, além de proibir o uso de esporas do tipo estrela que, machucam e ferem o ventre dos cavalos, devendo nesse último caso, sofrer o vaqueiro infrator, sanções e até mesmo ser por isso, desclassificado, a critério dos juízes do evento.

Acidentes...Acontecem! Não apenas com os animais, mas também com os vaqueiros. Toda essa celeuma me faz lembrar um fato curioso que, até seria engraçado, caso não houvesse culminado em consequência trágica e irreparável. Certa vez, quando trabalhei no campus da Universidade Federal em João Pessoa, me deparei com uma grande e larga faixa de pano preto que, cobria a fachada de um dos laboratórios, no departamento de química. Procurei então, conhecer o motivo do luto. Para minha surpresa fui informado que, um estudante, havia morrido de uma "buchada", o que me deixou, ainda mais, perplexo. Aprofundando-me no conhecimento do caso, consegui saber que, o rapaz havia almoçado uma buchada e, logo em seguida, resolveu montar a cavalo. Aconteceu que, acidentalmente sofreu uma queda do cavalo, havendo naquele momento, regurgitado o conteúdo estomacal do seu almoço. O vômito tomou falsa via, alojou-se nas vias aéreas do jovem e, impedindo que respirasse, o matou por asfixia.


O hipismo ou equitação abrange um conjunto de esportes praticados a cavalo, como o turfe ou corrida de cavalos, o pólo, o salto de obstáculos, assim como, a vaquejada e o rodeio. Esses são esportes bem diferentes do "curling", um esporte coletivo olímpico, praticado em uma pista de gelo e que, consiste em arremessar pedras de gelo, o mais próximo possível de um alvo, com o auxílio de instrumentos semelhantes a uma vassoura. Um dos esportes mais imbecis que, a humanidade já concebeu e, só comparado ao ato insano de enxugar gelo. Já assisti a um vídeo na televisão, onde um cavalo sofreu uma fratura exposta durante uma corrida, devendo por isso, ser abatido. Também já assisti cavalos que, refugando o salto durante as provas de hipismo, derrubaram e caíram perigosamente sobre os seus cavaleiros. Qualquer um que, tenha assistido ao clássico do cinema "E o vento levou", pode testemunhar o que afirmo aqui. Refiro-me a cena em que, Bonnie Blue, a filha do casal que protagoniza o filme, Rhett Butler (Clark Gable) e Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) morre, depois de tentar pular uma cerca, com o seu pônei.


Cruel, abominável e desumano é sem dúvida, o sistema de produção que enxerga os animais como produtos, que enclausura animais em ambientes minúsculos, muitas vezes iluminados apenas artificialmente, onde permanecem praticamente incapacitados de se mover, comendo ração até atingir o peso ideal, para depois serem conduzidos ao abate "humanitário", sem nunca sequer, terem visto a luz do sol. Depois de tudo, os humanos consumem a sua carne. Poucos falam, discutem ou reclamam disso. Pois, como afirmou Isaac Bashevis Singer "estão convencidos de que, o homem, espécie pecadora por excelência, domina a criação. Como se as outras criaturas, tivessem sido criadas, apenas para servir-lhes à comida, à roupa, para serem martirizadas e exterminadas".


No mundo, parafraseando Renato Russo, "pouco é certo e nada é justo". Faz-se portanto, necessário refletir e buscar alternativas que, ao menos minimizem situações como as citadas no exemplo acima, pois como seres heterotróficos que somos, precisamos adquirir os nutrientes indispensáveis a manutenção do nosso organismo de fontes externas. Diferentes dos seres autotróficos, como os vegetais que, são capazes de produzir os nutrientes necessários a sua manutenção e ao seu desenvolvimento, usando para tanto, apenas a luz, dióxido de carbono e água. O ideal seria que, como esses últimos, vivêssemos apenas de fotossíntese, e já houve até alguns que, testemunharam na televisão serem capazes de assim fazer, contrariando os princípios mais básicos do conhecimento científico humano.

Ora, mesmo os vegetarianos radicais, precisam devorar plantas que, também são seres vivos. Portanto, quaisquer discussões protecionistas nesse sentido e, de caráter sentimental, trata-se de niilismo puro. Assim, toda esse "mi mi mi" em torno de esportes equestres, a exemplo da vaquejada e, por que não incluir aqui também, o rodeio, alcançam um hebetismo sem precedentes, típico dos intelectuais que nada leem, dos estudantes que não estudam e dos trabalhadores que não trabalham. Acaso, se pretende com isso, perguntar aos animais se, gostariam de participar das referidas competições ou, se acaso se disporiam a carregar pessoas montadas em seu dorso, ou se por obséquio, poderiam levá-las sentadas em uma charrete, carruagem ou até mesmo numa carroça. Ou ainda se lhes agrada a ideia de trabalhar para os humanos, transportando pesados fardos de incontáveis produtos e mercadorias?

Bem fez o Conselho Regional de Medicina Veterinária da Paraíba que, realizou recentemente pela internet, consulta pública entre os veterinários e zootecnistas inscritos na autarquia, para ouvi-los nos seus posicionamentos quanto a regulamentação dos esportes equestres. Deliberando pela maioria dos conselheiros que, o Conselho Regional de Medicina Veterinária da Paraíba é favorável a regulamentação de todo e quaisquer atividade realizada com animais domésticos e de produção, desde que realizadas com a fiscalização e regulamentação legal por parte das autoridades competentes, uma vez que, a presença do médico veterinário e do zootecnista, assegura o bem estar, a proteção e a saúde de todos os animais.

Tudo isso, não é uma invenção da modernidade. A já antiga música "Odeio rodeio", lançada em 2005 e, de autoria do ex-secretário de cultura do Estado da Paraíba traduz, inexoravelmente, o verdadeiro prelúdio daquilo que, posteriormente, veio por esse mesmo, a ser chamado de "forró de plástico".















quarta-feira, 8 de julho de 2015

A Festa da Excelsa Virgem do Carmo 2015

Foi somente em 2012 que tomei conhecimento da existência da Festa em homenagem a Excelsa Virgem do Carmo, comemorada todos os anos, na igreja dedicada à Virgem em João Pessoa, capital da Paraíba, sempre no início do mês de julho e que consiste em um novenário cantado e orado em latim. É essa tradição que se mantém com a mesma beleza nos mais de 300 anos de permanência da Ordem dos Carmelitas na Paraíba que compartilho hoje com o mundo. Nesse ano, o novenário acontece de 06 a 16 de julho de 2015. Infelizmente, os vídeos com os mais belos momentos do novenário são muito grandes para serem postados aqui ou no "You Tube". Apresento então imagens do conjunto arquitetônico formado pela  Igreja do Carmo e pela Capela de Santa Teresa D'Ávila junto com um pequeno vídeo com a procissão de entrada no início do novenário. 

A palavra “Carmelo” deriva do Hebraico e significa “vinha do Senhor”. Conta-se que o profeta Elias viu a Virgem Maria indo para o Monte Carmelo na Palestina, em forma de nuvem que saía da terra. No ano 93, os monges construíram naquele monte uma capela em homenagem à Virgem. Expulsos no século XIII fundaram vários mosteiros pelo Ocidente, divulgando a devoção a Nossa Senhora do Carmo. Sabe-se também que um frade Carmelita chamado Simão Stock teve uma visão da Virgem Maria cercada de anjos, tendo nas mãos um escapulário da Ordem e ela dizia: “Eis o privilégio que dou a ti e a todos os filhos do Carmelo: todo o que for revestido deste hábito será salvo”. Vem daí a devoção do escapulário de Nossa Senhora do Carmo.

Os missionários Jesuítas chegaram a Capitania da Parahyba em 1588, seguidos pelos Franciscanos, Beneditinos e Carmelitas com o objetivo de evangelizar e catequizar os índios. Por desavenças com os Franciscanos sobre os métodos de educação e conflitos de interesses com a Coroa Portuguesa, os Jesuítas foram expulsos da capitania, enquanto os Franciscanos fundaram o seu convento em 1589. Os Beneditinos, por sua vez, iniciaram a construção de seu mosteiro em 1596, mas só começaram a construção de sua igreja na capitania no século XVIII, em 1721.

Em 1580 quatro padres carmelitas acompanharam a esquadra do capitão Frutuoso Barbosa, primeiro governador da Capitania Real da Parahyba, com o objetivo de fundar ali uma colônia, contudo, a tentativa de colonização fracassou por causa de uma tormenta que açoitou e dispersou as naus. O capitão retornou para Portugal, mas os Carmelitas ficaram em Olinda, no estado vizinho de Pernambuco, só vindo para a Capitania Real da Parahyba oito anos mais tarde, em 1588.  Naquele ano de 1580, por causa da morte do cardeal Dom Henrique que sucedeu o Rei Luso Dom Sebastião, morto em batalha no norte da África em 1578 sem deixar nenhum descendente direto, Felipe II, Rei da Espanha, reivindicou a coroa junto a oponentes como Dona Catarina, a duquesa de Bragança. Fracassadas as negociações diplomáticas, o Rei de Espanha invadiu Portugal com suas tropas militares tornando-se Rei de duas coroas. Portugal foi então anexado a Espanha e assim permaneceu durante 60 anos.

Na antiga Filipéia de Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, os Carmelitas construíram um convento, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e a capela de Santa Teresa D’Ávila, formando o Conjunto Carmelita em estilo barroco-rococó. No atual município de Lucena, no litoral norte da Paraíba, construíram ainda a Igreja de Nossa Senhora da Guia, raro exemplar do barroco tropical com grandiosos entalhes em pedra calcária retratando a fauna e flora brasileira e onde se pode ver singulares anjos deformados, fundaram ali também um hospital religioso. Parte da história dos Carmelitas na capitania da Parahyba se perdeu durante a invasão holandesa (1634 – 1654), uma vez que muitos documentos foram enterrados pelos religiosos e nunca mais foram encontrados ou foram recuperados em péssimo estado de conservação, impossibilitando a leitura.

Pia para água benta em forma de concha, esculpida em pedra calcária no estilo rococó.

Paredes laterais ornamentadas com azulejos portugueses que contam a história da Virgem do Carmo.

Um dos quatro púlpitos laterais na Igreja de N. S. do Carmo.

Altar Mor da Igreja.

Imagem de N. S. do Carmo no Altar Mor

Detalhe do Altar Mor com imagem de Cristo.

                        
Imagens dos profetas Elias e Eliseu no Altar Mor.


Pintura na nave do pórtico de acesso à entrada principal do templo. 

Coro e óculo da igreja.

Belo conjunto de portais em arco dão acesso ao claustro do antigo convento carmelita, atual Palácio do bispo.

Lápides no corredor entre o templo e o claustro do convento.

 


Altar Mor da capela de Santa Teresa D'Ávila.

Cúpula do Altar Mor da Capela de Santa Teresa D´Ávila.


Detalhes do Altar Mor da Capela de Santa Teresa D'Ávila.

 


 Altares laterais da Capela de Santa Teresa D'Ávila.

Coro e óculo da capela.


Pintura da nave da Capela de Santa Teresa D'Ávila.








              

sábado, 4 de julho de 2015

"Eu, 100 anos depois".




Vandalismo

Para ele, a vida não valia à pena. A prisão ao corpo e a vida material o atemorizava, assustava e entristecia. Não passamos de um corpo decadente que lentamente apodrece em direção ao nada e à morte. A vida só é aceitável no plano espiritual. Do Romantismo herdou a obsessão pela morte e enquanto os parnasianos se fantasiavam com os clássicos, desmascarou a realidade no Brasil e acabou o carnaval como sempre acontece, numa triste, cinzenta e lúgubre quarta-feira. Não foi acolhido por nada e por ninguém, permaneceu solitário. Para o professor de literatura João Trindade, Augusto é o poeta modernista que o grupo de egocêntricos intelectuais paulistas organizadores da Semana de Arte Moderna, não quis reconhecer. O poeta Olavo Bilac nem sequer o conhecia. Depois de apresentado a um poema de Augusto por ocasião da sua morte, Olavo afirmou: “Não se perdeu muita coisa na literatura brasileira”. Infortunadamente, o urubu pousou na sua sorte, pois enquanto hoje os livros de Olavo Bilac são muito pouco lidos e conhecidos, o “Eu” conta com mais de quarenta edições e Augusto continua a ser um dos mais lidos e populares poetas brasileiros.

Augusto dos Anjos nasceu no engenho Pau D’Arco, em Sapé, na Paraíba, Brasil, no dia 20 de abril de 1884. Foi alfabetizado pelo pai e estudou no Lyceu paraibano. Ainda muito jovem, contrariando a vontade da família, nutriu uma paixão por uma serva da casa, que se aprofundou na forma de caso amoroso. Engravidou a humilde jovem que por conta disso, foi surrada até a morte a mando dos genitores dele. Em 1907 tornou-se bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife. Mais tarde, em 1910, casou-se com Éster Fialho. Seu primeiro filho nasceu morto com 7 meses incompletos. Depois, teve com ela uma filha chamada Glória.

 
A árvore da serra

Ricordanza della mia gioventú

O maior de todos os paraibanos saiu de sua terra, expulso e impossibilitado de lá sobreviver e para lá nunca mais voltou. Em 1908, sendo ele professor do Lyceu Paraibano, embora professor substituto e não efetivo, gostaria de licenciar-se, mas continuando a receber os seus provérbios, para poder ir até o Rio de Janeiro lançar o seu primeiro livro intitulado “EU”. O poeta tinha consciência que o seu livro teria melhor projeção se lançado no sudeste do Brasil, região que concentrava a elite intelectual da época. Procurou o então Governador do Estado, João Machado, que negou o seu pedido. O fato culminou com impropérios de sua parte para com o governador, a quem já havia defendido em seus artigos e discursos, gerando uma intriga. João Machado, governador da Paraíba na época, era daquelas pessoas que seguem rigorosamente a legislação, que por sua vez, vetava a concessão daquilo que o poeta o havia pedido. Concordava, no entanto, que o poeta e professor se afastasse, contudo sem receber mais seus vencimentos. Diante disso, viajou ao Rio de Janeiro com o dinheiro que lhe foi emprestado por seu irmão. Dinheiro esse que jamais conseguiria ressarcir ao irmão, uma vez que por ocasião do lançamento do seu livro as vendas foram muito fracas. Somente a partir de 1929, com a quebra da bolsa de Nova Iorque e a crise financeira internacional, em sua terceira edição, o “Eu” tornou-se um “best-seller”, vendendo algo em torno de mil cópias em apenas quinze dias. O “Eu” tornou-se leitura obrigatória para os estudantes de medicina da faculdade de medicina do Rio de Janeiro. 

Depois de dois anos de peregrinação e fome no Rio de Janeiro, aonde chegou a morar em doze lugares diferentes, Augusto chegou a Leopoldina, no estado de Minas Gerais, no dia 22 de junho de 1914. Lá, ministrava aulas particulares de português, inglês, francês, grego e latim. Nesse ano então, o leopoldinense Dr. José Monteiro Ribeiro Junqueira, conseguiu para ele o cargo de diretor do grupo escolar. O “ginásio” era um colégio particular que atendia aos filhos dos barões do café e o ensino era preparado pela escola Pedro II do Rio de Janeiro. Leopoldina desde aquele tempo, já era uma cidade voltada para o saber e Augusto afirmava que lá teria encontrado o seu “nirvana”.  Tragicamente, depois de comparecer a um enterro debaixo de muita chuva, Augusto chegou a sua casa encharcado. No dia seguinte, apresentou febre alta e tremores, sendo diagnosticado com pneumonia. Num mundo ainda sem antibióticos, morreu doze dias depois, em 12 de novembro de 1914, com apenas 30 anos de idade.

Ironicamente, a Paraíba considerou-se roubada e dizia-se que os leopoldinenses haviam roubado o poeta dos paraibanos. A Paraíba desejava os ossos de Augusto, mas os familiares do poeta lavraram um documento em cartório, impedindo o translado dos restos mortais do poeta para a terra que o rejeitou no passado. Para cumprir-se o desejo do poeta que desejava ser sepultado à sombra de um pé de tamarindo, uma muda da planta foi levada da Paraíba para Leopoldina e plantada atrás do túmulo do poeta, onde até hoje ele descansa em paz. 

Debaixo do tamarindo

Um importante questionamento foi feito pelo escritor Jairo César no programa “Impressão” especial, apresentado pelo canal da Assembléia Legislativa do estado da Paraíba, em comemoração aos 100 anos da morte de Augusto. Ele argüiu: “Como se encontraria o mausoléu de Augusto dos Anjos, caso os seus restos mortais tivessem voltado à Paraíba?”. Esse questionamento pode ser facilmente respondido por qualquer um que visite o mausoléu do grande estadista paraibano assassinado em 1930, João Pessoa, no Palácio da Redenção, localizado em frente à praça no centro da capital paraibana, que recebeu como a capital do estado o seu nome e aonde nem mesmo lâmpadas queimadas são substituídas.  Ademais, se dependesse da vontade de alguns pseudo-intelectuais e políticos paraibanos, a capital já teria inclusive mudado de nome e o Estado da Paraíba já teria uma nova bandeira. Além disso, até hoje, não há na Paraíba uma grande obra pública que homenageie Augusto dos Anjos. Poucos anos atrás, foi inaugurado na capital o Centro de Convenções do estado, nem Augusto dos Anjos, muito menos outro grande estadista paraibano, o ex-governador professor Tarcísio de Miranda Burity, mentor do projeto Costa do Sol, na área aonde o Centro de Convenções da Paraíba foi construído foram lembrados. Tão pouco o povo da Paraíba foi consultado pelo governo democrático de “esquerda caviar” a respeito de qual nome gostaria de dar ao imponente prédio que, diga-se de passagem, foi um projeto do ex-governador José Targino Maranhão, o mesmo que em 1997, depois de 67 anos, trouxe de volta para a Paraíba os restos mortais de João Pessoa, promovendo uma cerimônia para recebê-los. Assim, o Centro de Convenções na capital da Paraíba, homenageia outro muito menos lido poeta, o ex-governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, que lamentavelmente como os fatos históricos se repetem, mas dessa feita sem os alegados motivos passionais de 1930, tentou assassinar o ex-governador Tarcísio Burity durante um almoço, no sofisticado e charmoso restaurante Gulliver, na praia de Tambaú, na capital paraibana.


Imagem do túmulo de Augusto dos Anjos em Leopoldina - MG

No início do século XX, quando seu único livro foi lançado; assim como no ano 2000, quando o povo da Paraíba o elegeu como o paraibano do século e daí por diante por tempos imemoriais até o fim do mundo, como sempre foi desde o início, será o povo que resgatará Augusto do ostracismo. É pura verdade que na Paraíba, o antigo ditado: “santo de casa não faz milagres”, se aplica com todas as suas letras.

Psicologia de um vencido 

Asa de corvo